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Curiosidades Página Inicial

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Duas onças pintadas, num fojo, em Retiro

          Ainda hoje, os antigos habitantes de Retiro do Muriaé, e suas adjacências, repetem, emocionados, o caso interessante que vamos narrar, com a fidelidade com que nos foi contado, por pessoas de tal responsabilidade, que não duvidamos de sua veracidade, embora se nos afigure um milagre.
Foi no ano de 1883. Na fazenda da "Serra", residia o seu proprietário, o Sr. Ricardo Antônio Nunes, juntamente com sua família, que cultivava café e cereais, além de criar gado bovino e outros animais, em regular abundância.
          As lavouras da fazenda eram circundadas por espessas matas virgens que se distendiam para o sul, até as divisas da propriedade do Sr. Firmino Moreira Ramos, e, para o norte, com as selvas espirito-santenses, e daí, para os sertões da Bahia, que era só mato...
          É sabido que as onças, em certas épocas do ano, emigram à procura de clima adequado, fazendo as suas excursões pelo dorso dos montes, habitualmente, de onde se desviam, apenas, quando pressentem animais pelas proximidades, que lhes sirvam de repasto, regressando após o seu itinerário, após haverem satisfeito seus apetites vorazes. Feito isso, prosseguem em sua marcha, de serra em serra, até atingirem o lugar de sua predileção, onde se fixam, provisòriamente, para regressarem pelo mesmo caminho, logo que mude a estação climatérica.
          Nessas excursões, sempre que êsses felinos passavam pelas proximidades da fazenda da "Serra", que fica próxima do dorso da cordilheira que liga o rio Carangola ao rio Muriaé, na sua ida, ou de regresso, atacavam o gado e devoravam algumas vitelas, ou outro qualquer animal, que surpreendiam nas bordas da mata.
          Assim, satisfeita a sua vontade, êsses viajores carnívoros, prosseguiam a sua marcha, incólumes, deixando o Sr. Ricardo Nunes e família apavorados com a ousadia de tais visitantes e lastimando os prejuízos sofridos com a perda de animais valiosos.
          Cansado de suportar essa situação aflitiva, o Sr. Ricardo Nunes resolveu dar caça a tais feras, e, para consegui-lo, mandou construir um fojo, no dorso da cordilheira, por onde elas transitavam, invariàvelmente, nas suas periódicas excursões. Um dia, nas visitas costumeiras, que eram feitas de dois em dois dias, ao fojo, êsse proprietário, deparou com um belo espécime de onça pintada, da malha miúda, das mais ferozes de nossa fauna.
          Sôbre o destino a ser dado à fera, duas opiniões se formavam desde logo: uma opinando pela morte imediata da bela prêsa, e a outra, que ela fôsse retirada viva e posta numa gaiola, para ser vendida ou explorada em exibições públicas; venceu esta última, por grande maioria, pois a curiosidade levou ao local numerosas pessoas que tomaram parte no conclave.
          Assim deliberado, o Sr. Ricardo mandou, sem perda de tempo, construir uma gaiola de ferro (jaula), para receber a bela devoradora de seus rebanhos.
          Enquanto aguardava a vinda da jaula, a onça era visitada no fojo por grande número de pessoas de Retiro e da redondeza, por onde, célere, correra a notícia de sua caída na armadilha. Nesse ínterim, a fera estava sendo alimentada dia sim dia não, com o sacrifício de um cão vadio, um cabrito sem sorte, um gato infeliz, ou outro qualquer animal, que eram atirados ao fojo e devorados imediatamente, proporcionando aos visitantes um espetáculo apavorante.
          Num dos dias de ser alimentada a onça, ao ser lançado ao fojo um pequeno cão, o jovem Antônio Nunes, filho do fazendeiro, disse aos circunstantes: - "Êste, nem Santo Antônio o livra" - e atirou o pobre animal sôbre a onça, nas profundezas da tétrica armadilha, onde a fera, esfomeada, aguardava a sua ração daquele dia.
          Qual não foi a susprêsa das pessoas que assistiam à cena, ao verem a fera encolher-se tôda a um canto do fojo, e o cãozinho a enfrentá-la, acuando a destemeroso, como se ali estivesse uma lebre, um coelho ou outro qualquer animalzinho inofensivo.
          Durante algum tempo, os circunstantes contemplaram estarrecidos aquela cena inédita, convencidos de que assistiam a um verdadeiro milagre, e quando abandonaram o local, em demanda da fazenda, ao cair da tarde, lá deixaram o cãozinho acuando a onça, que, de vez em quando, lhe mostrava os dentes ameaçadores, sem que o intimidassem.
          Dois dias depois, voltando ao fojo, como de costume, para tratar da alimentação da onça, que - supunham - já haver devorado o cãozinho que lá deixaram, levavam para o regabofe do felino, naquele dia, um gato velho e gordo.
          Nova surprêsa os aguardava: a onça não havia devorado o cãozinho. Lá estava êle, no fundo do fojo, continuando a acuá-la, com a mesma coragem do primeiro dia. Sem que encontrassem uma explicação para o caso, os circunstantes, depois de contemplarem em silêncio aquele quadro estranho, resolveram retirar o cãozinho, utilizando, para isso, de um cipó, em cuja ponta fizeram uma laçada com a qual, metida no pescoço do animalzinho, o retiram do fojo, são e salvo, atirando a seguir, o gato à fera, que esmaimada, o aparou no ar, devorando-o num instante.
          As visitas ao local, continuaram como dantes, para tratamento da fera.
O cãozinho foi levado para a fazenda, e tratado com todo o carinho daquele dia em diante, até que morreu de velho.
          Alguns dias se passaram, e nova surprêsa estava reservada à curiosidade daquela boa gente, que não se cansava de subir e descer a serra, em repetidas visitas de admiração ao feroz animal.
          É que um dia, ao chegarem ao fojo, encontraram, em vez de uma, duas onças grandes e belas, que olhavam displicente do fundo da caverna, os seus curiosos visitantes, como se já fôssem velhos conhecidos.
Foi um delírio. Todos se regosijaram com aquêle acontecimento inesperado, e a romaria ao fojo, dia a dia aumentava, até que ficaram prontas, não uma jaula, porém, duas, que receberam as feras, que, daí por diante, passaram a ser objeto de exploração comercial.
          Essas onças, algum tempo depois, foram vendidas ao Sr. Antônio Bueno de Alvarenga, que as fêz exibir em diversas localidades do Estado, sendo que uma delas veio a morrer pouco tempo depois.
Como se explica o aparecimento da outra onça no fojo?
          Muito simples: a primeira onça que havia caído no fojo, era fêmea. de modo que o seu companheiro por ali passando e vendo-a no fundo da armadilha, nêle se atirou, sem medir conseqüências. Salvar a companheira, ou morrer com ela, ao seu lado, teria sido o motivo instintivo do macho, naquele instante decisivo, ao se atirar no fojo.
          E êsse motivo custou-lhe a separação eterna, porque, desde que passaram a viver nas jaulas, nunca mais se encontraram. Deram-lhes, depois, destinos diversos.
Como são maus os homens...


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